FELIZ 12 DE JUNHO, PALESTRINO!

O amor não se limita a relações entre pessoas. É uma celebração da vida. (Paulo Coelho)
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Já fazia uma semana que eu não conseguia dormir direito. Aquelas chamadas “borboletas no estômago” não paravam de voar… meu coração ficava apertado a cada vez que eu me lembrava da segunda partida da final do Paulistão. Tentava me manter tranquila, mas era impossível. Por pouco eu não tinha ficado sem ingresso para a decisão. Depois de não ter conseguido comprá-los lá no Palestra, graças a Oberdan Cattani, eles estavam no meu criado mudo, junto com a imagem da Madre Paulina.
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De sexta para sábado foi difícil dormir, foi difícil não pensar, não imaginar aquele grito de campeão saindo da nossa garganta. Eu mentalizava aquele momento, imaginava a cena do Palmeiras campeão, o tempo todo, e chorava o tempo todo também. Era uma coisa tão estranha… Embora estivéssemos há 16 anos sem conquistar um título, embora eu morresse de medo, eu tinha certeza que seríamos campeões.
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E tinha aquela imagem… Desde a semana que antecedeu a primeira partida, uma imagem não saía da minha cabeça. Não era uma coisa que eu imaginava, era quase como se fosse uma visão…  me acompanhando por duas semanas. Evair correndo prá galera, de braços abertos e comemorando diante de mim. Evair de joelhos no gramado… Era tão nítida! Achei que fosse um sinal, sei lá… Ainda me dá, um nó na garganta a cada vez que penso nisso. Mas quando jogamos a primeira partida e perdemos, me pareceu que a tal imagem fosse só birutice minha mesmo. Acabei até me esquecendo um pouco dela…
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E o dia chegou! Era 12 de Junho, Dia dos Namorados… Tava certinho. Afinal, nosso caso de amor, nosso “namoro” sempre foi com o Palmeiras. Daquele tipo de amor que dura por toda uma vida e além dela.  Eu mal conseguia esperar pelo momento de estar no Morumbi. Não via a hora de estar na arquibancada. Tinha certeza que ganharíamos, mas ficava tentando imaginar o que aconteceria. Achava que o Palmeiras, mordido com a derrota no primeiro jogo, mordido com a idiotice de Viola, iria atropelar os gambás. Mas, às vezes, pensava que gostaria de dormir e acordar depois que tudo tivesse sido resolvido. Que angústia! Nem conseguia comer… Mas nada que eu imaginasse poderia ser melhor do que aquilo tudo que eu vivi no Morumbi…
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Faltavam quase duas horas para começar a partida quando chegamos no Morumbi. E ele estava cheio. E foi enchendo cada vez mais. Ficou lotado! Que coisa linda a massa verde, em meio às bandeiras! A torcida palestrina cantava como nunca, sorria como nunca, se abraçava e desejava sorte como sempre. Mas a tensão era grande, o nervosismo era quase palpável. Como expressar aqui o que eu senti quando o Palmeiras entrou em campo? Que festa linda!
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O jogo começou e o empate favorecia os gambás. Mas o Palmeiras foi mostrando que tinha chegado a hora de ser campeão. O Verdão sobrava na partida. Evair, cerebral,  comandava as ações do time. O volume de jogo do Palmeiras enlouquecia a gente na arquibancada e desnorteava os gambás em campo… Mas faltava o gol…
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Eu mal conseguia esperar por ele.  Evair estava começando uma partida como titular, depois de quase dois meses machucado, e jogava maravilhosamente, como sempre. Edmundo já tinha perdido um gol incrível. Eu não conseguia nem  raciocinar,  só conseguia sentir meu coração, quando Evair tocou para Zinho, que entrou na área, pela direita e chutou cruzado, mesmo sendo puxado pelo seu marcador. A bola atravessou a área e foi morrer lá no canto direito do goleiro. Foi a redenção! Foi a certeza, para todos os que estavam no estádio, que o título paulista de 1993 tinha dono! Enquanto metade do Morumbi se calava, a outra metade, mais linda, explodia!! “Obrigada, meu Deus!” era tudo que eu conseguia gritar. E gritei tanto, que perdi a voz naquele lance. Acho que nunca na minha vida eu tinha sentido uma felicidade daquele tamanho. Todos sabíamos que aquele gol era a senha para tudo que viria depois…
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Enquanto o Palmeiras começava a ganhar o título, os gambás começavam a perder a pose, a cabeça. Não conseguiam parar a Máquina Verde e apelavam para as botinadas. Henrique foi expulso ainda no primeiro tempo. Na segunda etapa, o Palmeiras continuava o massacre. A torcida não parava de cantar, jogava com o time, e era como se todos nós estivéssemos dentro de campo. O Palmeiras se portava como um legítimo campeão, como se jogasse por música. Evair era o maestro. Edmundo, com seus dribles maravilhosos, deixava irados os defensores corintianos. Edilson fazia o mesmo… Neto, gordo, sofria com Antonio Carlos, que não o deixava jogar. Sampaio parava Viola que, antes de entrar em campo, tinha até vomitado nos vestiários, tamanha era a tensão daquela partida…
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A nossa Defesa Que Ninguém Passa se mantinha intransponível! Mas o Palmeiras queria mais. Nós queríamos mais! Ronaldo saiu da área, ao ver Edmundo avançar e, ao ser driblado, parou o Animal com falta. Foi expulso! “AU AU AU, EDMUNDO É ANIMAL” cantava a arquibancada!! Eu cantava também,  mesmo sem a voz que tinha perdido no gol de Zinho…
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A raça do time era contagiante! Eu sentia tonturas e tremia muito. E foi tremendo que vi Mazinho pegar uma bola quase no meio de campo e avançar até chegar pertinho do goleiro e tocar rasteiro para o segundo pau. Adivinhem quem vinha lá? “Ele”! Evair, o “Matador”, que povoa os nossos sonhos (e o pesadelo dos adversários) até hoje, mandou prás redes e fez o segundo gol do Palmeiras. Eu gelei quando olhei pro campo, e não consegui parar de chorar ao ver Evair correr prá galera, exatamente onde eu estava. Então, eu pude ver, de verdade, a imagem que me acompanhara por dias e dias. As lágrimas correm pelo meu rosto ainda hoje, ao lembrar daquela cena… “EÔ EÔ EVAIR É UM TERROR!”, cantava a metade feliz do Morumbi!!!
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Mas o Matador Evair queria mais! Fez a jogada e chuta para marcar o terceiro, mas a bola pegou na trave.  No rebote,  Edilson (que saiu da história e do coração da torcida, por conta própria) mandou prás redes! Delírio!! OLÊ PORCOOO! OLÊ PORCOOOO!! O Morumbi se tornou verde!! O mundo todo ficou verde!! O sangue que corria frenético em nossas veias era verde!! Muitos torcedores se ajoelhavam, olhando pro céu…  Nunca vi tantos homens e mulheres chorando ao mesmo tempo. E que sabor tinham as nossas lágrimas. De felicidade, palpável, explícita, correndo pelas nossas faces… “Boi, boi, boi, boi do Evair, Palmeiras Campeão, vai cair o Morumbi”!!!
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Com a vitória, o Palmeiras levava o jogo para a prorrogação. Meu amigo,  imagine o que significava poder sair da fila de 16 anos, em cima do maior rival, e ter que jogar uma prorrogação.  Os nervos estavam à flor da pele. Meu corpo todo formigava… O coração batia tão alto e tão forte que chegava a doer o peito.
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Era chegada a hora! Apenas trinta minutos nos separavam de um sonho…Trinta minutos para acabar com um jejum de  16 anos…Trinta minutos para desbancar o “protegido” rival. Estávamos com o “coração-na-boca”. Vaaai Palmeiras!!! Não tínhamos nenhuma dúvida. Apenas esperavávamos… felizes, confiantes, ansiosos, sorrindo…
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Mas time que tem Edmundo e Evair, não deixa a torcida esperando. O Animal, genial, que já tinha feito uma jogada maravilhosa, (Edilson perdeu o gol quase embaixo das traves) numa outra jogada de craque, partiu prá dentro da área e foi derrubado… PENALIDADE MÁXIMA, DIZIAM OS COMENTARISTAS!!!
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Sabíamos que era só esperar a cobrança e comemorar… Sabíamos que aquele gol seria o gol do título… Sabíamos que, finalmente, sairia de nossas gargantas o grito de “É CAMPEÃO”… EVAIR, O CRAQUE DA CAMISA NÚMERO 9, SERIA O COBRADOR! Ninguém ousou respirar, quando ele correu para a bola e o mundo explodiu num verde-e-branco campeão… GOOOOOOOOOOOOOOOL!!
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Albert Einstein saberia explicar, eu não, mas o mundo parou naquele momento. Naquele exato momento entre a bola tocar as redes e o grito sair de nossas gargantas. E então, voltamos a respirar, nosso coração voltou a bater, o mundo se encheu de cor e calor… Luxemburgo, num ritual que se repetiria inúmeras vezes, desceu para os vestiários, antes mesmo do jogo acabar. Ele já sabia… nós todos já sabíamos…  O Palmeiras era o Campeão!! Nada no mundo poderia ser mais delicioso do que aquele momento.  O juiz ter apitado o final do jogo foi um mero detalhe. A Nação comemorava, ria e chorava ao mesmo tempo, as pessoas se abraçavam, se beijavam, pulavam e gritavam… muitas se mantinham de joelhos agradecendo a Deus…
Evair, louco de alegria, de braços abertos, correndo para a torcida e se ajoelhando no gramado, é a imagem que ficou impressa em nossos corações…prá sempre. “É Campeão” foi o grito que ficou gravado em mim…
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Obrigada, meus heróis! Obrigada Evair,  “Matador” maravilhoso, que num 12 de Junho de 1993, dia em que celebramos um amor do tamanho do mundo, devolveu a vida  a milhões de torcedores palestrinos…
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FELIZ 12 DE JUNHO DE 1993 A TODOS AQUELES QUE TÊM O PALMEIRAS NO CORAÇÃO!
  • Imagine, Tania, que, naquele dia, sábado, eu estava indo para um centro espírita!!. Vi o primeiro gol em casa. O segundo, na Brigadeiro Luiz Antonio, quando ainda existia a G. Aronson. O terceiro, já no centro. Eram 6 horas quando começou a prorrogação e eu, numa roda de tratamento de cromoterapia. Ouvi foguetório. “Eles ganharam”, pensei, entristecida. Mal acabou o tratamento, saí correndo para o albergue que o centro mantinha. “Qual foi o resultado?”, perguntei para o voluntário do albergue. “Deu Palmeiras”, disse o rapaz. Eu olhei para o céu – estava frio, naquele dia, lembra?, mas o céu estava limpo, cheio de estrelas. Lembrei-me de meu pai, falecido 4 anos antes, palestrino de fibra. “Nós ganhamos, pai!” No dia seguinte, a romaria pelas bancas, para comprar jornais, todos os possíveis e imagináveis. Gravar o “Cartão Verde” … Não tenho mais nada disso, perdido em mudanças. Mas tenho guardado no meu coração. E essa foto do Evair é uma das mais bonitas que eu já vi!

  • Thiago Spinelli

    Tania, mais uma vez fiquei emocionado com seu post, assim como me emociono com todo e qualquer relato daquele dia épico. Na época eu tinha 18 anos, morava em Ribeirão Preto e não pude ir ao jogo. Na noite anterior, trabalhei a noite toda no caixa de um barzinho, como parte dos “bicos” que fazia pra ajudar meus pais a pagarem meu cursinho. Lá pelas 5 da manhã, esperando o ônibus pra voltar pra casa, rolou um breve tiroteio no terminal em que eu estava. Chegou uma multidão de policiais. Noite tensa.
    Mas eu nem me importava. Minha única preocupação era com o jogo. Cheguei em casa quase 5 horas da manhã e não dormi. Fiquei acordado, a mil por hora, esperando começar.
    Mas minha tensão não foi até o final. Todo meu medo de perder mais um título paulista (já havíamos perdido o do ano anterior pros bambis, em um jogo que eu não vi porque estava fazendo a prova do vestibular da Unesp) se foi logo no gol do Zinho. Naquele gol todas as minhas dúvidas acabaram. O fim de semana, na verdade, começava ali. Aliás, uma pequena correção, você disse que não dormiu de sábado pra domingo, mas na verdade seria de sexta pra sábado, aquele 12 de junho foi um sábado.
    E eu também só fui dormir na madrugada de domingo pra segunda. Destruído após duas noites inteiras em claro, mas feliz.
    E parabéns pelo post, mais uma vez.

    • Oi Thiago,

      Obrigada por me contar a sua história, dentre tantas outras, que cada torcedor deve ter vivido naquele dia memorável.
      E você tem razão, era um sábado e não um domingo (o texto foi editado). Eu tinha até uma festa para ir naquela noite. Festa que, é claro, não contou com a minha presença… Eu sabia que a maior de todas as festas aconteceria lá no Morumbi.
      Fico grata por você ter me lembrado disso. Mas vou te contar um segredo: de sábado para domingo, eu também não dormi… rsrs

      Um grande abraço
      Tânia Clorofila